Por que existe uma diretriz mundial para os pés
O diabetes pode comprometer os nervos (neuropatia) e a circulação (doença arterial periférica) dos membros inferiores. A combinação é traiçoeira: o pé perde a sensibilidade protetora ao mesmo tempo em que cicatriza pior. Uma bolha de sapato novo, invisível para quem não sente dor, pode evoluir para úlcera, infecção e amputação.
Para enfrentar esse problema global, o International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF) publica desde 1999 diretrizes baseadas em evidências, atualizadas periodicamente e adotadas como referência no Brasil por sociedades como a SBACV e a Sociedade Brasileira de Diabetes.
Os cinco pilares da prevenção segundo o IWGDF
1. Identificar o pé em risco
Toda pessoa com diabetes deve ter os pés examinados pelo menos uma vez ao ano, incluindo o teste de sensibilidade com monofilamento de 10 g e a palpação de pulsos. Perda de sensibilidade protetora ou má circulação colocam o paciente em categoria de risco maior — e acompanhamento mais frequente.
2. Inspecionar e cuidar regularmente
Nos pés de risco, o exame profissional deve ocorrer a cada 1 a 6 meses conforme a classificação. É aqui que o cuidado podológico regular se encaixa: corte técnico de unhas, remoção profissional de calosidades (que escondem lesões sob pressão) e detecção precoce de qualquer alteração.
3. Educar paciente e família
O autocuidado diário é a primeira linha de defesa:
- Inspecionar os pés todos os dias (espelho para a planta)
- Lavar e secar bem, especialmente entre os dedos
- Hidratar a pele — mas não entre os dedos
- Nunca andar descalço, nem dentro de casa
- Nunca cortar calos ou usar calicidas por conta própria
- Verificar o interior do calçado antes de calçar
4. Calçado adequado
Sapatos inadequados são o gatilho mais comum das úlceras. A recomendação: calçados com espaço para os dedos, sem costuras internas agressivas, e palmilhas de redistribuição de pressão quando há deformidades ou histórico de úlcera.
5. Tratar cedo qualquer lesão
Ferida que não cicatriza em duas semanas é urgência. O tratamento precoce em equipe multidisciplinar — médico, enfermagem, cuidado podológico, cirurgia vascular quando necessário — é o que evita a progressão para amputação.
Os números que justificam o esforço
- Até 70% das amputações não traumáticas de membros inferiores no Brasil estão ligadas ao pé diabético (SBACV)
- Cerca de 25% das pessoas com diabetes terão úlcera nos pés ao longo da vida
- Programas estruturados de prevenção reduzem amputações em 50% ou mais, segundo estudos citados pelas diretrizes
O que isso significa para você
Se você tem diabetes: peça o exame anual dos pés, conheça sua categoria de risco e mantenha acompanhamento podológico na frequência indicada.
Se você cuida de alguém com diabetes: participe da rotina de inspeção diária — muitas lesões são percebidas primeiro por familiares.
Se você é profissional: a estratificação de risco do IWGDF é a bússola que define a frequência ideal de retorno de cada paciente.
Referências
- IWGDF Guidelines — Diretrizes sobre prevenção e tratamento do pé diabético (edição traduzida para o português)
- SBACV — Pé diabético e amputações não traumáticas de membros inferiores
- Sociedade Brasileira de Diabetes — Diretrizes sobre cuidados com os pés
- Revista Ibero-Americana de Podologia — O podólogo como profissional de referência na prevenção do pé diabético