Separando ciência de crença popular
Poucas partes do corpo acumulam tantas "receitas de vó" quanto os pés. Algumas são inofensivas, outras atrasam o tratamento correto — e algumas podem machucar de verdade. Veja o que os estudos e a prática clínica dizem sobre as crenças mais comuns.
"Cortar a unha em V no meio faz a unha encravada desencravar"
MITO. A curvatura da unha é definida na matriz, na raiz — o corte em "V" na ponta não altera nada no crescimento. A conduta correta é o corte reto, o tratamento do canto inflamado e, em unhas com curvatura acentuada, técnicas como a onicoórtese (órtese que corrige gradualmente a curvatura).
"Alho, vinagre ou água sanitária curam micose"
MITO (e perigoso). Nenhum desses tem eficácia comprovada contra onicomicose — e a água sanitária pode causar queimadura química. O tratamento eficaz combina diagnóstico laboratorial, antifúngicos adequados (tópicos ou orais), desbridamento podológico e prevenção da reinfecção.
"Esmalte comum em unha com micose piora o quadro"
VERDADE. Esmaltes convencionais e unhas postiças vedam a lâmina e mantêm a umidade — ambiente ideal para o fungo. Durante o tratamento, apenas os esmaltes-medicamento prescritos devem ser usados.
"Calo é uma proteção natural, é melhor deixar"
MITO, com nuance. O calo é resposta da pele à pressão excessiva — sinal de que algo está errado na pisada ou no calçado. Deixá-lo crescer aumenta a pressão local e, em diabéticos, esconde úlceras em formação. O correto é a remoção profissional e a correção da causa (calçado, palmilha, biomecânica).
"Quem tem diabetes pode tirar os próprios calos com cuidado"
MITO — nunca. Lâminas e calicidas em pés com sensibilidade reduzida são causa clássica de feridas que evoluem para úlcera. Diabéticos devem ter calos removidos exclusivamente por profissionais.
"Pé de atleta só acontece em atleta"
MITO. Tinea pedis atinge qualquer pessoa que mantenha os pés abafados e úmidos — o apelido vem apenas da associação com vestiários. É a micose de pele mais comum que existe.
"Suar muito dos pés é doença e tem tratamento"
VERDADE. A hiperidrose plantar é uma condição real, e o mau odor associado (bromidrose) resulta da ação de bactérias sobre o suor. Há tratamento: desde antissépticos e ajustes de calçado até opções médicas para casos intensos.
"Andar descalço em casa fortalece os pés"
PARCIALMENTE VERDADE. Em superfícies seguras, andar descalço ativa a musculatura do pé e melhora a propriocepção. As exceções são importantes: áreas públicas úmidas (risco de fungos e verrugas) e pessoas com diabetes ou neuropatia, que devem estar sempre calçadas.
"Unha descolando é sempre micose"
MITO. A onicólise pode vir de traumas repetitivos, produtos químicos, psoríase e outras causas. Por isso o exame micológico antes de meses de antifúngico: quase metade das unhas "com cara de micose" tem outro diagnóstico.
"Palmilha personalizada é só para quem tem dor"
MITO. Palmilhas também atuam na prevenção: redistribuem pressões em pés diabéticos, corrigem sobrecargas de atletas e retardam a progressão de deformidades. A indicação nasce da avaliação da pisada, não apenas da dor.
A regra de ouro
Na dúvida, avalie com um profissional antes de tratar por conta própria. O barato da receita caseira costuma sair caro — em tempo, dinheiro e saúde.
Referências
- Manual MSD — Doenças das unhas e infecções fúngicas da pele
- Diretrizes IWGDF sobre prevenção do pé diabético
- Literatura de podologia clínica sobre onicocriptose, hiperidrose e órteses plantares